terça-feira, 13 de setembro de 2011

Dom Brandão por Ir. Francisca


DOM JOSÉ BRANDÃO DE CASTRO


Ir. Francisca Hendrick, Pacatuba/SE

Há pessoas que continuam falando mesmo depois de mortas. Assim é e será Dom José Brandão de Castro. Quantos encontros, reuniões, assembléias onde o nome deste grande profeta é lembrado. Ele é lembrado com saudade, alegria e estímulo pelo que viveu no meio do povo da diocese de Própria.
Dom José, participante do Concílio Vaticano II, foi em 1965 bater na porta do convento das Irmãs da Caridade de Namur – Bélgica. Ali esteve solicitando a presença de irmãs na diocese. Na época poucos padres atendiam o povo, o próprio bispo era vigário da catedral. Havia duas comunidades de irmãs, mas ocupadas no hospital e no colégio. Dom José queria irmãs na pastoral.
Eu, irmã Francisca estava já me preparando para trabalhar na África. Deus mudou os meus rumos e aceitei vir ao Brasil, para diocese de Própria. A nossa chegada bem preparada pelo homem que era, sensível e humano, foi uma festa.
No primeiro período nossa diocese cuidava do conhecimento dos documentos do Concilio e juntos procurávamos como pô-los em prática. Desde então começou a revelar sua capacidade de adaptação ao novo, da parte do nosso bispo.
A pastinha cheia de documentos, ele chegava e nos encantava com seu entusiasmo.   O entusiasmo é contagiante, mais padres, irmãs e agentes de pastoral vinham chegando. Quando nos encontrávamos era uma festa, o nosso Dom cantava, gargalhava e acolhia a todos. O povo da diocese participava ativamente da vida da diocese de Própria.
Os documentos de Medellin, Puebla e do Concilio, acordaram então uma esperança abafada apesar da ditadura do regime militar.
Dom José acolhia a todos na sua casa, um cafezinho e um doce estavam sempre prontos a espera dos visitantes.
Quando irmã Terezinha e eu fomos falar com o nosso Dom para nos permitir viver uma vida de inserção em Canhoba, ele nos disse: “O projeto de vocês é muito exigente, vão, mas se não agüentar, voltem aqui”.
Nem nós, nem Dom José talvez sabíamos que este envio para a radicalidade do evangelho seria nosso batismo.
O povo se encarregou da nossa formação. Tempo de muita exigência, mas despertar agudo da presença de Deus no meio dos humildes.
Neste tempo nasceu a equipe missionária diocesana na nossa casinha em Canhoba, tudo com o pleno apoio do bispo.
Também surgiu a desapropriação das terras do Betume pela campanha da Codesvasf.  Muito sofrimento para o povo de toda região de Neópolis e IIha das Flores.  Na ocasião duma visita a diocese por Dom Pedro Casaldaliga, bispo da diocese de São Félix do Araguaia, grande profeta durante o regime militar e depois. Visitando este povo sofrido, perdendo seus meios de vida, os dois bispos e nós irmãs, o homem seu Zequinha exclamou: “Dom José o senhor é o nosso Moisés”.  Estas palavras ressoaram fundo no ser do bispo. De tímido que era se tornou audacioso e sem descanso, defendendo os direitos dos fracos.
Promovemos uma Santa Missão na Santana dos Frades, Pacatuba. Dom José marcou presença durante todo tempo da missão. Ali descobrimos um povo que vivia praticamente em regime de escravidão, mantido por Zeca Pereira. O bispo mais uma vez se sensibilizou ao pedido deste povo. Iniciou-se então uma reivendicação pela posse, foram três anos de ameaças e inquietação, muitos se fizeram solidários, o bispo sempre que necessário dava o grito pela justiça.        
A Ilha de São Pedro foi enfrentada em favor dos índios Xocós, hoje libertos na sua aldeia.
O tempo, as preocupações, a responsabilidade, o regime militar, a falta de recursos, todos estes fatores desgastaram cedo demais as forças de nosso amado e querido Dom José. Na sua grande humildade ele pede afastamento da diocese e voltou para sua Congregação Redemptorista em Minas Gerais.
No dia 23 de dezembro 1999, ele realizou a sua entrega total a Deus.

Fonte: E-mail enviado ao Pe. Isaias Nascimento no dia 11/07/11, uma segunda-feira, às 07hs17.

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